sexta-feira, 15 de maio de 2009

Uma aula de jornalismo investigativo



Ver palestras e entrevistas com o Caco Barcellos é sempre bom! E desta vez não foi diferente. Em bate-papo descontraído, com Ruy Carlos Ostermann, Caco encantou a plateia do Encontros com o Professor. Com declarações assertivas e boas histórias para contar, deu lições do bom jornalismo feito por um repórter dedicado e comprometido com a profissão.
Contou um pouco de sua carreira, de como um estudante de matemética e mostorista de táxi virou jornalista da Folha da Manhã, nos anos 70. Lembrou de experiências significativas da sua época de repórter independente, viajando pela América do Sul em busca da melhor reportagem. "Éramos três jornalistas atrás de histórias para contar. Quando estávamos na Guatemala, presenciamos o maio terremoto de todos os tempos, com 26 mil mortos. Ajudamos nas buscas e socorro dos feridos e acabamos com um ótimo material para o jornal. Como éramos os únicos repórteres brasileiros lá, vendemos o texto e as fotos para a Folha da Tarde. Rendeu uma semana de capa", contou.
Falou, em seguida, sobre a dificuldade de encontrar profissionais da comunicação que tenham um perfil de repórter. "Parece que as faculdades de jornalismo estão formando um monte de apresentadores. Ao receber os vídeos para a seleção de quem será o novo integrante da equipe do Profissão Repórter, vi um monte de William Boner e Fátima Bernardes lá", comentou.
Caco acredita na reportagem com dedicação e embasamento teórico. Criticou as denúncias feitas pela imprensa, muitas vezes sem ouvir a fonte principal: o acusado. "Quando temos uma denúncia a fazer é importante ouvirmos a 'vítima', pois é a imagem dela que está sendo denegrida pelo veículo de comunicação. Não dá para, simplesmente, dizer que a pessoa não atendeu ao telefone. Tem que ir atrás, tem que deixar um espaço para ela responder, se defender, se for o caso. O que vejo, é que é muito mais fácil, e barato, denunciar. Reportagem de qualidade sai caro", alfinetou a imprensa.
Outro aspecto que o jornalista criticou, é o fato de muitos repórteres ficarem acomodados em seus postos, fazendo apenas o que os editores indicam. Para Caco, o bom profissional tem que ir atrás de mais informações sobre a pauta recebida. Se for o caso, trazer, inclusive, dados contrários aos que o editor lhe forneceu. "Se o seu chefe chegar com cinco documentos que afirmam determinada coisa, pesquise e volte com 200 que digam o oposto. Ele não vai ser incoerente de mandar vocês ignorar os 200 e considerar os cinco que te deu, pois estará queimando a imagem dele com os outros colegas. O que pode acontecer é ele nunca mais te passar uma matéria boa para fazer. Mas este é o preço que se paga por ter vergonha na cara!", declarou Caco, motivando e ensinando o bom jornalismo a plateia. Logo, complementou: "Sou à favor da transgressão produtiva".
Por fim, Caco repreendeu a ação do Bope nos morros do Rio de Janeiro, com dados que mostram que essa polícia matou mais, no ano de 2007, do que os países que têm pena de morte. "Foram mais de mil pessoas mortas pelo Bope, todas elas pobres e, a grande maioria, negras. A justificativa: são bandidos, são traficantes. Não temos banqueiros traficantes aqui no Brasil também? Quantos ricos mau-caráter foram mortos? Isso tudo só mostra a incoerência e brutalidade dessas ações violentas que acontecem nos morros e nas vilas", comentou.
Por essas e outras declarações excelentes, foi que o autor dos livros Rota 66 e Abusado deixou o público maravilhado, principalmente aqueles que partilham da mesma profissão que ele. Não poderia ter sido melhor e mais esclarecedor.






PS: não pude deixar de tietar o grande jornalista que é o Caco Barcellos. Levei o meu livro, Abusado, para ele autografar e aproveitei para dizer que admiro muito a trajetória profissional desse mestre do jornalismo investigativo.



Crédito das fotos: Luis Ventura






quarta-feira, 6 de maio de 2009

Absurdo é pouco!

O governo Yeda quer acabar, de fato, com a (pouca) qualidade do ensino das escolas públicas do RS. A última, é a tal proposta de agrupar as disciplinas em quatro grandes áreas: linguagens (língua portuguesa, literatura, língua estrangeira, arte e educação física), matemática, ciências da natureza (biologia, química e física) e ciências humanas (história, geografia, filosofia e sociologia).

Se a ideia fosse, apenas, dar nome aos bois – modificar o nome das disciplinas, mas ainda exigir que cada professor tenha a formação acadêmica em uma determinada área – tudo bem. Mas a proposta é fazer com que professores, formados em disciplinas específicas, como Física, possam dar aula de Química e Biologia também! Como assim? Mal os educadores atuais conseguem ministrar as suas próprias matérias, por conhecimento insuficiente ou defasado, e o Estado querendo que eles sejam capazes de dar aula sobre três assuntos distintos???

Tudo bem que a interdisciplinaridade é importante, concordo. Também acho que seria bem interessante que os professores tivessem mais conhecimentos sobre as outras matérias que se relacionam, ou deveriam se relacionar, com a aquela em que eles se formaram. Mas querer que, de um ano para o outro – a proposta deve ser implementada já em 2010 – todos estejam preparados para “ensinar por área” é querer demais! Além disso, querem fazer concurso público – leia-se arrecadar $$ - para já contratar professores por área.

É totalmente absurdo. É mais que um absurdo! Com isso, o ensino público só tende a ficar ainda mais precário. É humanamente impossível que um cara que se formou em Química, que por si só já é algo bem complexo, tenha conhecimento satisfatório para ensinar Física e Biologia. Não dá, não tem como. A não ser que ele fizesse as três graduações, estudasse por mais de 10 anos. Absurdo!

Em meio a protestos e indignação do Cpers/Sindicato, a secretária estadual da educação, Mariza Abreu, respondeu o seguinte hoje, no Bom Dia Rio Grande: “Do Cpers não vale, eles estão sempre criticando mesmo!”. Mais absurdo!

Na Zero Hora, algumas justificativas da secretária:

“É certo que a mudança vai acontecer no ano que vem. Não há nenhum obstáculo significativo – diz Mariza.” (Claro, o Cpers não vale!)

“Segundo Mariza, os professores que hoje ensinam uma disciplina específica teriam um período de transição para trabalhar nas áreas. Eles primeiro serão preparados para essa função.” (De que jeito? Vão fazer três graduações?)

“A Secretaria da Educação entende que um docente deve ter condições de lecionar todas as disciplinas compreendidas dentro de uma mesma área, mas espera uma mudança nos cursos de formação.” (Sim, no próximo vestibular da UFRGS, PUCRS etc. vão ter as opções Ciências da Natureza, 10 anos de curso, Ciências Humanas, nove anos de curso...)

“Conforme Mariza, a proposta do Estado está em sintonia com o que o Ministério tem defendido como a melhor referência para a organização do currículo.” (Claro, o Brasil como um todo é o exemplo da qualidade e valorização da educação)

Que te parece?